Entrevista com a Psicóloga Social Graciela Chatelain pelo A TARDE On LineHaroldo Abrantes / Agência A Tarde Liliana Graciela Chatelain, 52, é natural de Buenos Aires, Argentina, e formada em psicologia social. É vice-presidente e co-fundadora do Centro Interdisciplinar de Estudos Grupais Enrique Pichon Rivière (CIEG), organização não governamental fundada em 1995. A ONG é dedicada à compreensão das relações entre ser humano e meio social, e as relações dessa adaptação com a saúde mental das pessoas. Na última segunda-feira (16/06/2008), Liliana conversou com o A TARDE On Line sobre os recentes casos de vídeos mostrando atos sexuais envolvendo adolescentes, suas possíveis causas e implicações, o que leva ao desejo de exibicionismo e agressão, o papel da família e das condições sociais na formação do jovem e as mudanças nas relações humanas causadas pelo acesso à tecnologia.
A TARDE On Line - Nos últimos dois meses, três casos de adolescentes expostos em vídeo fazendo sexo - consentido e não consentido - ganharam repercussão na Bahia. A que a senhora atribui a vontade de registro desses atos sexuais?Liliana Graciela Chatelain - São casos diferentes, e precisamos observar essas situações com bastante cuidado, porque elas têm diversos motivos para acontecer, mesmo que haja uma razão que desencadeie tudo, a gota d'água. No histórico individual podem ter acontecido muitas coisas, como abuso sexual, algum desvio de conduta na infância que não foi resolvido, algo que fica. A perversão pode estar ligada a uma necessidade de trangressão e desafio, para provocar escândalo, para produzir no outro algo que lhe produziram, um tipo de reação que lhe faça sentir gozo. Essa é uma explicação psicanalítica, mas a gente pode ver também o que acontece socialmente, quais os incentivos que temos permanentemente no dia-a-dia, quais os estímulos que a tecnologia oferece a esses atos de exibicionismo.ATOL - Cite um exemplo.LGC - A televisão sempre ofereceu esses estímulos, e precisa cada vez mais aumentar a dose de relações sexuais e situações violentas, o que gera exibicionismo e voyeurismo. Os meios de comunicação incentivam muito isso. O Big Brother é o quê? É entrar na vida dos outros, é ter prazer em mostrar a intimidade, o sexo entre as pessoas, e, ao mesmo tempo, ser como aquelas pessoas, se exibir. Isso não é a única causa, claro, mas é naturalizado, e os pais não exercem restrições sobre isso.ATOL - Então os pais são culpados por essas situações? LGC - Não, mas a família foi se deteriorando ao longo do tempo, está cada vez mais fragilizada. Os pais ficam muito tempo fora de casa. Os trabalhos exigem mais tempo e exercem pressões que, se não forem cumpridas, provocam demissão. Com isso, crianças e adolescentes perdem o seu grupo de sustentação, não têm orientação familiar. Isso varia de acordo com a as camadas sociais. Os pais de classe baixa acham que repetir a educação que tiveram dos pais vai dar certo. Reproduzem uma forma de relacionamento em que sexo é um assunto de que não se fala, e isso continua sendo um tabu. Quando essas crianças vão para a escola, acabam tendo informação de outra forma, quase sempre distorcida. Já os pais de classe alta podem ser responsabilizados porque sabem o que estão fazendo com os filhos quando os deixam na frente da TV ou do computador sem saber que informações eles estão vendo. Deixam os celulares na mão ds filhos sabendo de todos os recursos que esses aparelhos têm. Eles têm uma confiança sem cautela. Não é assim - é preciso ter confiança com informação. Isso não é invasão de privacidade.ATOL - No caso da garota do Colégio Central, que consentiu e participou do ato e da filmagem (mas não permitiu sua divulgação), há algum problema específico com o fato dela ter 14 anos? Seria conservador pensar que esse foi um ato precoce, ou a preocupação dos pais deveria ser apenas quanto à divulgação do vídeo? LGC - A gente tem que ter muito cuidado. Não podemos julgar uma menina que está em fase de desenvolvimento, que não está madura. Não é assim: "jogar pedra na Geni". Isso pode produzir um trauma terrível e temos que lembrar que nós somos responséveis por isso. Mas podemos dizer que ela está mostrando uma dificuldade? Está. Não é caso de sexualidade precoce. A partir dos 12, 13 anos, meninos e meninas tem hormônios em pleno funcionamento. Quantas mulheres dessa idade já tiveram filhos no passado? O que temos que pensar é que todo esse estímulo fornecido pelos meios de comunicação pode, sim, estar influindo num desenvolvimento mais precoce da sexualidade não só na adolescência, mas na infância.ATOL - No interior, os vídeos divulgados mostraram estupros. Ao contrário do que realmente ganha notoriedade, os agressores não são muito mais velhos. Que "históricos" levam adolescentes a esse tipo de violência?LGC - Nesses casos, houve uma questão muito característica da violência, que é dopar a menina, e isso é característica de uma conduta desviada. O que faz a diferença é o poder que agressor tem sobre a vítima, ou seja, com o estupro, os adolescentes mostram potência. Quando a gente vai na origem, muitas vezes descobre que adolescentes agressores foram estuprados em casa. Claro, cada caso é um caso, mas, dentro da psicologia social, temos um conceito de violência como resultado de vontades frustradas. Nossa conduta é construída em cima de vontades satisfeitas e frustradas. Basta pensar: uma criança já nasce em uma situação muito desfavorável, sem ser planejada; a mãe tentou aborto e não conseguiu, a criança nasce e continua rejeitada, e depois vai ser maltratada. Alimentação, educação, vestuário, saúde, nada. Sem apoio da família, essas necessidades frustradas viram revolta, dor e raiva. ATOL - Mas casos de violência acontecem em todas as classes...LGC - Nos casos de crianças de classe média, média alta, a lógica é a mesma. Essas crianças são sistematicamente satisfeitas, mimadas. Com isso, não conseguem suportar frustração e isso cria desvios de conduta. A reação a uma frustração é a violência. Quando se cria uma criança, é preciso equilíbrio, balanço entre satisfação e frustração.ATOL - Por que esses alguns desses casos aconteceram em grupo?LGC - Isso não é novo. Lembra daqueles jovens que colocaram fogo no índio em Brasília? Os adolescentes precisam estar identificados e sustentados pelos outros. Isso torna a ação mais fácil porque eles pensam que os outros levam a sua responsabilidade. Isso não tira a culpa, mas dilui. A frase típica é "eu não queria, mas eu fui", mas a gente sabe que eles tiveram um gozo em cometer esse crime. Mas ninguém jamais vai dizer "fiz mal a alguém" porque isso me safisfaz. A pessoa que faz uma coisa dessas vai negar ter gostado. ATOL - Depois que um adolescente comete uma agressão desse tipo, a senhora acredita em recuperação?LGC - Sempre há possibilidade de recuperação. A pergunta é outra: qual o tratamento que estão dando aos adolescentes? Primeiro, algo aconteceu para que a conduta deles se desviasse desse jeito. Se dentro de casa tivessem orientação e limites, seguramente isso não teria aontecido. Um jovem com limites vai poder até fumar sua maconha na adolescência para saber o que é, mas não vai se viciar. A gente pode entrar e sair porque se governa. O bom tratamento implica que esse jovem tem que ser conhecido em todos os sentidos. Ele tem que ter uma punição, aplicada pelas autoridades, que devem ser capazes de saber quais sanções são as mais adequadas. Fatores psicológicos não diminuem o fato, o dano causado, mas os jovens responsáveis devem poder refletir sobre o que fizeram, com acompanhamento psicológico. A punição sem reflexão e tratamento só pode ter um resultado: eles vão ser liberados e cometer o mesmo crime, até dentro de casa. Se essa experiência deixar um trauma, o jovem vai ter muito mais dificuldade de se resolver como adulto. Se muitas vezes essas crianças são maltratadas em casa, e já apresentam nessa idade desvios de conduta, que comportamento vamos esperar que eles tenham com os filhos?ATOL - A senhora é a favor da diminuição da maioridade penal? Não acha que a idéia de ser preso poderia inibir um crime como esse?LGC - Sou contra. A questão é encontrar o que se deteriorou ao longo do tempo: os valores, a família. É preciso promover a comunicação com os pais, a restauração desses valores. Se a gente mudar a lei, daqui a pouco vai ser preciso baixar a maioridade para 14, até o dia em que atingirmos a infância. Reduzir a maioridade é paliativo. Quando queremos encontrar soluções, temos que ir à origem das coisas, intervir sobre o que faz todo esse processo de degradação começar. ATOL - Como deve proceder o pai que observa uma conduta desviante? LGC - Sempre procure ajuda, nunca ache que seu filho vai mudar sozinho. Se observar alguma coisa errada, a primeira coisa a fazer é sempre perguntar, mas nunca acusando. Porque essa é a época de se afirmar, e os pais têm que colocar limites. Para gerações que passaram pela ditadura como a minha, é difícil ser rígido, mas às vezes os pais têm que impor limites de maneira autoritária. Isso não deve ser constante, mas é preciso mostrar a diferença. A relação pai-filho é assimétrica: filho aprende com pai, e pai dá sustentação ao filho. Os papéis não são iguais. ATOL - A senhora é a favor da restrição do acesso de crianças e adolescentes a equipamentos digitais como câmeras e filmadores, além de celulares com essas funções?LGC - Acho que ninguém deve poder usar celular nos colégios. Não é lugar para isso: na escola, somente equipamentos fornecidos pela escola. Agora, a questão não é exatamente o acesso aos produtos: se o adolescente não tiver esses desejos de se exibir e de ver a intimidade do outro, não vai filmar um ato sexual. Por outro lado, não podemos deixar de refletir sobre a mudança causada pelas tecnologias nas interações humanas. É mais fácil e prático se excitar com uma tela do que achar uma pessoa com a qual eu tenha que ter vínculo. Há uma busca pelo gozo imediato. As pessoas estão mais intolerantes com o tempo do outro. |