| Crítica da Vida Cotidiana : “Beber, Cair e Levantar...” Breve reflexão sobre um refrão |
| em 27/6/2008 12:00:00 (882 leituras) |
“Beber, Cair e Levantar...” Breve reflexão sobre um refrão*Jane Carvalho“Beber, Cair e Levantar...” Breve reflexão sobre um refrão *Jane CarvalhoEscutando, involuntariamente, uma famigerada música que se apresenta na TV, enquanto verifico meus e-mails, decido de repente, parar o que estou fazendo e desato a escrever. Não posso me furtar de refletir sobre as “preciosidades musicais” que sou obrigada a escutar (ainda que sejam apenas alguns trechos) na televisão, nos rádios, nos alto-falantes das lojas e automóveis, enfim, nas bocas alheias... que me bombardeiam com o que equiparam a nossa atual “Música Popular Brasileira”. O refrão que intitula este texto agride sobremaneira quando se banaliza o ato de embebedar-se, estimulando uma conduta inconseqüente e violenta consigo próprio e com o outro. Será que o refrão “Beber, cair e levantar...”, que se repete indefinidamente, não incomoda quando hoje enfrentamos uma realidade onde se mata e morre no trânsito, quando se estabelecem relações irresponsáveis de competitividade, indiferença e violência? E, se não incomoda; por quê não incomoda? Segundo o Blog do Trânsito:“Estatísticas publicadas no Brasil confirmam que, em mais de 40% dos acidentes onde há a participação de pelo menos um veículo motorizado, alguns dos participantes, inclusive pedestres, estão sob a influência do álcool”.A maioria das vitimas de acidentes de trânsito são os jovens e as crianças. A inconseqüência, a falta de respeito e a ingestão de álcool por parte de muitos motoristas são apontadas como as principais causas de morte no trânsito. Seguem dados estatísticos do Denatran, IBGE, Criança Segura e Organização Mundial de Saúde sobre o trânsito brasileiro:- mata uma pessoa a cada 11min; - atropela uma pessoa a cada 7min; - fere uma pessoa a cada 2,8min; - produz um acidente a cada 31seg; -faz 34 mil vítimas fatais/ano (mortes no local do acidente).Estes dados são assustadores; entretanto, o fato de acontecer em todo território nacional, provoca a perda da noção real do que isto significa na vida das pessoas.O famigerado refrão deveria incomodar a todos, também por vivermos num sistema social, onde diversos grupos familiares adoecem a partir da vivência do alcoolismo.Em recente pesquisa sobre dependência a drogas, Morgado e Coutinho, ao entrevistarem 150 famílias de pacientes dependentes de drogas, encontraram 68 pais com problemas psiquiátricos, dos quais 50 com transtornos associados ao álcool, e em 36 mães com àqueles problemas, 18 prevaleciam de neurose. Pode-se então postular se o mesmo fato ocorreria com a família do alcoolista.Sistema social este que não cuida de nossas crianças e adolescentes que acessam cada vez mais cedo o mundo do álcool. Dados do Ministério da Saúde constatam que: “... A bebida alcoólica que é uma droga lícita e cujo uso abusivo acarreta sérios prejuízos às crianças e aos adolescentes que, sob o efeito do álcool estão duas vezes mais expostos do que qualquer grupo etário a se envolver em acidentes” (BRASIL, MS, 1999).Então, ao entoarmos este refrão, não percebemos o quanto torna familiar e cotidiano a conduta de “beber, cair e levantar...” Me pergunto se poderiam existir fórmulas para se combater este tipo de “arte” enquanto as letras. Talvez seja uma forma da censura, também com isso não concordo, por isso não creio que existam; mas acredito que existem possibilidades, como aponta Pichon-Rivière:“Fazer uma crítica da realidade é interrogar a essência dos fenômenos, é superar a ilusão dos fatos”. Como possibilidade, vale nos assombrarmos! Desse modo, torna-se importante não perdermos esta capacidade de assombro, questionamentos e análise crítica, lembrando de como nosso sistema social estimula a interpretação do real, ainda lembrando a proposta pichoniana:“A interpretação da realidade tem origem num sistema social com uma ideologia dominante (o poder, os meios massivos de comunicação, a TV, o Rádio, a Internet...) que encobre a realidade do nosso cotidiano, ao mesmo tempo o mostra como real. O que está aparente se identifica como realidade e o essencial costuma ficar encoberto. Convivemos com esses mecanismos e os consideramos como natural – a violência, a discriminação racial, a discriminação sócio-econômica, a miséria, o desrespeito aos nossos direitos enquanto cidadãos, as mortes no trânsito, a dependência química e etc.” Como caminhos, podemos então refletir, problematizar, criticar. Mas não uma crítica pela crítica e sim uma critica reflexiva, analítica; questionando sobre o que está por traz destas mensagens. A quem interessa e qual o interesse se tem em veicular este tipo de mensagem? Esta pergunta que não se cala, nos possibilita um rompimento com a aceitação acrítica e irreflexiva das mensagens que recebemos e cantarolamos “nos embalos das baladas cotidianas”. A partir daí, podemos criar caminhos para a transformação deste cenário.Para não perdermos a esperança, fomos presenteados com uma notícia possibilitadora: O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aprovou nesta quinta-feira (20/06/2008), o projeto que estabelece a proibição do consumo de álcool para os motoristas que trafegam nas estradas. Antes da sanção deste projeto, a lei permitia a ingestão de até 6 decigramas por litro de sangue, o equivalente a três tulipas de chope. Segundo a Lei:“O motorista que for autuado e constar por meio do bafômetro a ingestão de qualquer teor de álcool no organismo estará sujeito a pagar uma multa de R$ 955, de categoria gravíssima, e terá suspensa a carteira de habilitação durante um ano. A lei proíbe ainda a venda de bebidas alcoólicas nas áreas rurais de estradas federais e libera nos trechos urbanos. Dentro do pacote, a nova lei estabelece punição mais rígida ao motorista alcoolizado que matar alguém ao volante. A partir da sanção, este crime será enquadrado nas leis de homicídio doloso.” Pensar no cotidiano não é apenar refletir, mas tomar atitudes que nos permitam “planejar a esperança” por isso também seria bom lembrar: “Quem se entrega à tristeza, renuncia a plenitude da vida, para sobreviver, planejar a esperança” (Enrique Pichon-Rivière). Referências Bibliográficas:
BRASIL, Ministério da Saúde. Normas de atenção à saúde integral do adolescente. Secretaria de Assistência à Saúde – SAS. Brasília, 1999, v.3MORGADO, A.F. & COUTINHO, E.S.F. Dados de epidemiologia descritiva de transtornos mentais em grupos populacionais do Brasil. Cad. de Saúde públ. 1 (3): 327-47, 1985. RIVIÈRE, Enrique Pichon; QUIROGA, Ana Pampliega de. Vida Cotidiana e Critica da Vida Cotidiana. _____________________________ * Pedagoga, Especialista em Psicologia Social de linha pichoniana, Arte Educadora e Consultora em Desenvolvimento Humano. |
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