CRÍTICA DA VIDA COTIDIANA
Vida Cotidiana, Crítica da Vida Cotidiana e Pichon-Rivière
A Psicologia Social fundamentada por Enrique Pichon-Rivière se inscreve na Crítica da Vida Cotidiana. Pichon no livro “O Processo Grupal” diz “não há nada que não passe pela vida cotidiana”, e é nessa cotidianidade, nos fatos e nas coisas mais óbvias, que podemos indagar para encontrar a origem dos conflitos. É na vida cotidiana que se ocultam e se naturalizam os conflitos. Pichon propõe a crítica da vida cotidiana como a forma de não aceitar acriticamente o pré-estabelecido socialmente. Desocultar, desnaturalizar será a proposta deste espaço. Sair da familiaridade encobridora dessa cotidianidade.
Quantas vezes no dia-a-dia vamos aceitando aquilo que se apresenta como o natural, a superfície dos fatos, das condutas, das interações? Quantas vezes vemos e não enxergamos, ouvimos mas não escutamos; repetimos ações sem perguntar-nos o por que e o para que dessas ações? Quantas vezes cumprimentamos ao outro mecanicamente e o outro responde também mecanicamente, sem nenhuma consciência de estar no “piloto automátco”? E quando notamos ao outro, o notamos pela ausência. Quando o outro não está é que o percebemos. Questionar a cotidianidade nos implica, nos faz protagonistas de nossa história, mas não será apenas um questionar e sim buscar alternativas para mudar, dessa forma poderemos “planejar a esperança”, como diria Pichon.
Assim, inauguramos este espaço para expor toda forma possível de expressão, que tenha como proposta a desfamiliarização do cotidiano, como proposta dialética de crítica a realidade, esta que se modifica dependendo da nossa forma de acessá-la. Enviem textos, ensaios, cartas, poesias, imagens que abarquem esta proposta, e discuta os mais diversos temas - política, religião, futebol, cidadania, casamento, filhos, educação, etc. – , para o nosso endereço ciegepr@ig.com.br, de maneira que permita formas criativas de repensar o cotidiano.
Texto escrito por Graciela Chatelain – Psicóloga Social e Presidente do CIEG 09/2006
Óbvio e conhecido?
Todos os dias, estamos em contato com situações novas de aprendizagem, mas nem sempre somos conscientes dos medos e das resistências à mudança que nos produzem.
Todos os dias, estamos frente a situações observáveis, familiares e naturais, mas nem sempre temos tempo para deter nosso olhar, nosso ouvido, nossa língua, nosso nariz, nem as gemas de nossos dedos. Imagine, se não temos tempo para deter nossos sentidos; como será o tempo do qual dispomos para a reflexão? E não estou falando de um tipo de reflexão psicológica, mais aprofundada. Estou falando apenas da observação e reflexão do óbvio do que aparece, emerge, está aí todo dia, a toda hora, e nós não vemos ou não indagamos por ele ser tão conhecido, tão costumado, tão óbvio; por tanto muito menos poderíamos pensar na possibilidade de transformá-lo porque não se questiona, pois não se enxerga. Então, como diz Ana Quiroga “O óbvio pode ser o mais desconhecido”.
Por tudo isso, e coincidindo com a proposta pichoniana, penso que é de fundamental importância perguntar-se pelo óbvio, porque dessa forma poderíamos desvendar as origens dos conflitos e criar as condições para a transformação subjetiva e social.
Graciela Chatelain - Salvador 23/04/07
Perguntar: entendeu?
Em condições normais de funcionamento, o cérebro é o órgão que nos possibilita o entendimento. Isto quer dizer, que se o cérebro não tiver alguma disfunção todos os seres humanos estaríamos em condições de entender; por tanto perguntar a um ser humano se entende seria uma redundância ou estaríamos colocando-lo numa situação de incapacidade de entender; quase chamando-lo de incapaz ou burro ou qualquer outro animal, pois só os animais não tem essa capacidade de raciocínio. O mais interessante é ver como as pessoas utilizam essa forma para dirigir-se ao outro e, especialmente, quando se coloca na pergunta determinadas entonações do tipo: “Como! Não entendeu?” ou afirmando “Você não está me entendendo” ou “Entenderam?” isto para um grupo, geralmente em sala de aula ou para um auditório. Através das Letras tive acesso ao Analise do discurso, tal vez por isso, sei que quando organizamos nosso discurso, ele mostra um modelo de construção que contem determinantes ideológicos. Por tanto mostra em que lugar nos colocamos e em que lugar colocamos ao outro, em uma explicação ou em um dialogo. Há tempo que a educação se esforça por não ser autoritária, pelo menos em tese; todos falamos que o professor aprende com o aluno, mas na prática se mostra através do discurso o posicionamento dos educadores em relação aos educandos e uma assimetria muito mais essencial do que funcional. Há tempo que nas práticas pedagógicas insistimos em entender o vínculo ensino – aprendizagem; questionamos os velhos modelos da repetição e propomos formas criativas, mas continuamos colocando o acento da dificuldade de entendimento no outro. Quando será esse dia em que as pessoas, especialmente essas que trabalham com gente, em atendimento, educação, saúde, se questionem a si próprios se estão sendo claras em suas explicações? Há tempo que nas minhas aulas ou no tratamento com os outros eu comecei a perguntar: “Estou sendo clara?” ou “Está dando para me acompanhar?” Dessa forma eu posso me ver e saber se estou organizando meu saber de forma compreensível para possibilitar a aprendizagem, para criar as condições do aprender. O problema não está no outro, está em nós; mas para chegar a essa compreensão se faz necessário sair da onipotência narcisista e ingressar na humildade do saber.
Graciela Chatelain - 10/07/07
Escolhendo a primeira Escola ...
Escolher a primeira escola para o (a) filho (a) pode parecer, a priori, algo muito simples, mas se refletirmos um pouco sobre o que significa APRENDER e no que esse processo ressoará futuramente na vida adulta de uma criança, isso muda radicalmente.
Da mesma forma que, como nos fala Lya Luft: “...ter filhos e cria-los é cada dia gerar e pari-los outra vez, sem descanso”, e portanto um compromisso cotidiano com seu desenvolvimento emocional, físico e intelectual, escolher a primeira Escola implica não só a tomada de decisão – a escolha em si – mas, fundamentalmente, a ratificação dessa escolha a cada instante, a partir do processo de interação que vai se estabelecendo nos diferentes vínculos e relações que se engendram desde então.
É a primeira vez que a criança sai de casa, do seu espaço, do seu grupo familiar para se inserir em uma nova forma organizada de interação (um novo grupo), iniciando uma nova rotina e vivenciando novas experiências que certamente incidirão sobre seu desenvolvimento e personalidade. Não obstante, e lembrando que os primeiros anos de vida do indivíduo são de extrema importância para sua formação e saúde psico-social, é preciso acompanhar de perto a vida escolar do filho nessa fase, e principalmente neste primeiro ano, estando atentos aos novos vínculos e relações que começam a se formar, tais como: aluno/professor; aluno/proposta pedagógica; aluno/ equipe pedagógica; aluno/funcionários em geral; aluno/diretoria da escola; pais/professor; pais/diretoria, etc. Desse modo, se tem maiores possibilidades de conhecer de forma mais real a maneira como funciona a Instituição Escola, a aplicabilidade de sua proposta pedagógica e perceber se seus objetivos estão sendo coerentes com suas ações e com as atitudes daqueles que são os responsáveis por colocá-las em prática.
A Escola não deve ser vista apenas como espaço onde são construídas condições favoráveis para o aprendizado, mas deve ser entendida e buscada como um lugar de “pertença”, no qual o aluno (a criança) possa estabelecer um vínculo de confiança, interagindo, conhecendo e aprendendo de forma prazerosa, criativa e inovadora. Com isso não estou afirmando que a Escola seja uma “família” para a criança ou mesmo um prolongamento desta, não, de forma alguma. Escola é escola e família é família, uma não precisa da outra para desenvolver suas tarefas, mas a criança precisa de ambas para se desenvolver e é nesse sentido que elas podem ser parceiras e complementares na busca pela qualidade no processo de educação/formação desta.
A Escola deve ser entendida e buscada como um lugar onde a criança possa pensar, sentir e fazer de forma integrada e não fragmentada, onde ela possa unir razão e emoção, cabeça e corpo, onde possa finalmente se sentir de fato (e não no papel ou no discurso) protagonista de seu processo de construção do conhecimento.
A Escola tradicional, comandada pelo pensamento lógico-formal e de ensino autoritário, não tem mais espaço na sociedade contemporânea, isso já sabemos há muito tempo. Mas também não podemos nos iludir com a Escola que se constrói sobre os novos/velhos discursos “revolucionários”, métodos de ensino e propostas pedagógicas que se dizem democráticas e construtivistas, mas que apenas re-editam, na prática cotidiana de ensino, formas mais sofisticadas e sutis de banalização, alienação e fragmentação do indivíduo e de seus processos de interação com os outros e com a realidade, construindo e/ou reforçando modelos autoritários, competitivos, estereotipados e individualistas.
Por isso, é preciso perguntar-nos também: que modelos ou matrizes de aprendizagem (diferentes atitudes de pensar, sentir e agir e de interpretar o mundo) esta Escola está ensinando ao meu (minha) filho (a)? De que forma esta Escola compreende o processo de construção do conhecimento e como o repassa aos alunos? Quais são os valores desta Escola?
Entretanto, as respostas destas perguntas, estão atreladas a questionamentos anteriores, como: o que eu quero para o meu filho? Quem eu quero que ele seja? O que espero de uma escola? Qual é o papel da escola na vida de um indivíduo?
Cada família tem suas expectativas em relação ao (s) filho (s) e em relação à primeira Escola e seu método de ensino-aprendizagem, e é isso basicamente que as faz optar e decidir por determinada Instituição de ensino.
Nesse sentido, é fundamental repensar constantemente sobre estas expectativas, para que as mesmas não se restrinjam a “uma boa formação intelectual da criança”, considerando apenas os aspectos lógicos e cognitivos da mesma, até porque, no processo de conhecimento, o aluno aprende não só um conteúdo, mas aprende também uma maneira de abordar este objeto de conhecimento e de interpretar esta aprendizagem (aprendizagem implícita), organizando e significando formas mais ou menos facilitadoras/possibilitadoras de aprender. É essa modalidade que pode afirmar se este é um processo de formação, libertador e transformador do indivíduo ou, ao contrário, o aprisiona em um determinado padrão que o impede de refletir sobre si mesmo, sobre os outros e o mundo e, portanto, de transformar e transforma-se.
Para a Psicologia Social, aprendizagem significa: “apropriação instrumental da realidade para transformá-la e transformar-se”, ou seja, não há aprendizagem contemplativa; aprender implica sempre um fazer, uma ação. Uma ação que gera transformação. Por isso a aprendizagem deve ser vista ainda como sinônimo de criatividade, de adaptação ativa à realidade e de transformação, e todas estas como práticas da prevenção da falta de saúde psico-social.
Creio que seja esta a dimensão através da qual devemos enxergar o que seja APRENDER, como também através da qual devemos escolher a primeira Escola, estando também conscientes de que esta instituição, assim como a família, também faz parte de uma comunidade e de uma sociedade e, consequentemente, reflete sua cultura e seus valores.
Maura Espinheira Avena
Bibliografia:
- Pichon-Rivière, Enrique: O Processo Grupal – Editora Martins Fontes, 5ª. Edição, São Paulo, 1994;
- Quiroga, Ana P.: Matrices de Aprendizaje - Constituicion del sujeto em el proceso de conocimento; 3ª. Edición, Ediciones Cinco, 1994, Buenos Aires, Argentina.
- Freire, Madalena: Escola, Grupo e Democracia – Síntese do texto de Elaine Tavares, a partir da palestra de Madalena Freire no painel Escola, Grupo e Democracia em Porto Alegre, Abril, 1992. Transcrição: Marilene Pereira e Maria Inês Petry;
- Luft, Lya: Perdas e Ganhos – 31ª. Edição, Rio de Janeiro, Record, 2005.
Na certeza da incerteza e na dúvida da dúvida é que eu me acho. Graciela Chatelain
A Droga da Escola ou a Droga na Escola?
Escutamos algumas vezes alguns adolescentes dizerem: “a escola é uma droga”. Isto em baianês quer dizer algo assim como a escola é um saco ou um tédio ou um horror. Droga, então, seria o equivalente a algo muito ruim. Não obstante, pensando na significação das palavras e das expressões e em todas as suas variáveis, a droga na escola hoje pode mudar o sentido dessas significações; já não é mais saco, nem tédio nem horror, agora é um mundo de fantasias em Chicago onde os Intocáveis agora traficam maconha, cocaína, craque e outras “cositas más”. Que bom que a droga na escola mude o sentido da expressão e se diga que bom que a escola seja uma droga!
Me pergunto: de quem depende que a droga entre nas escolas públicas de Salvador e cidades vizinhas? Quais são os mecanismos que não estão sendo utilizados para que alunos estejam drogados em sala de aula, para que alunos continuem indo para escola só para traficar e não para estudar?
Será que a escola é tão ruim que se necessita estar drogado para suportar matérias e professores?
Será que a violência, produzida por um grande montante de frustração e amenizada pela droga, está sendo naturalizada? O que está encobrindo essa naturalização?
O que faz que um adolescente queira experimentar maconha? Sabemos que essa etapa da vida é a da transgressão, e que bom que assim seja! Mas, o que faz ficar preso à experimentação e seguir consumindo, tornando-se um adito às drogas?
Criando algumas hipóteses poderíamos pensar que tudo depende do grau de contenção e sustentação que se receba dentro do grupo familiar. È na família que recebemos os primeiros valores e conhecimentos; depois vem a escola, mas na escola a preocupação parece ser sobre conteúdos de matérias e não a aprendizagem de valores éticos e morais.
Penso; na escola não se ensina a cooperar, a falar sobre os sentimentos, a questionar o obvio, o naturalmente aceito; na escola se pergunta pelo que pensamos, se avaliam conteúdos, achando que isso é o que nos transforma; não se reflete sobre as experiências, não se avaliam nossas dificuldades e ganhos no processo de aprender. Se define, de antemão, que não deveremos ter dificuldades e que o ganho será apenas a repetição de conteúdos. Será que essa é a droga da escola? E, como será a droga da família? Por que será que os pais nunca se sentem responsáveis por seus filhos se drogarem? Qual será o destino das frustrações não elaboradas de pais e filhos? Será que não existem conexões?
Bem, já é hora de agir. O que você faria para mudar? A mudança sempre começa por casa e se você não é capaz sozinho, procure ajuda, mas não deixe as coisas como elas estão, porque só depende de nós lutarmos por uma família melhor, uma escola melhor, uma sociedade digna e justa para nós e para nossos filhos.
06/2008